Covarde, ingênua e culpada

Eu fui covarde.

Eu nunca escrevi sobre isso mesmo quando sabia que era o meu maior trauma. Eu nunca escrevi sobre isso mesmo quando sabia que tudo o que eu precisava era colocar tudo para fora.

Eu fui covarde porque eu tinha medo do que as pessoas iam pensar de mim se soubessem. Eu fui covarde porque eu tinha medo do que eu ia sentir se escrevesse sobre isso.

Eu nunca escrevi sobre isso porque eu queria esquecer.

Mas é impossível esquecer.

 

Era uma quarta-feira normal.

A gente se sentou na última carteira da sala, uma do lado da outra, como sempre, e não parava de falar e uma irritar a outra. Eu também lembro que, nesse dia, você prestou mais atenção nas matérias e me deixou orgulhosa por ficar tirando suas dúvidas, invés de só reclamar que não conseguia entender nada. Quando a aula terminou você me pediu carona para voltar para casa, mas eu disse que não podia porque eu ia de condução e eu falei que te esperava mais tarde no curso de inglês.

Mas você não apareceu. E eu fiquei me perguntando por que você não foi e não tinha me falado nada de manhã.

Eu não te mandei mensagem para confirmar se você ia. Eu não mandei mensagem perguntando cadê você. Eu não te mandei mensagem.

Teria feito diferença se eu mandasse?

A quinta-feira seguinte foi um dos piores dias da minha vida.

Você não apareceu na aula.

Eu não me preocupei logo no início mesmo sabendo.

Porque eu sabia. Eu sabia que dos cortes, eu sabia da depressão, eu sabia que você não estava bem. Eu vi as marcas no seu pulso, eu conversei com você. Eu pedi para você procurar ajuda e pedi para você parar.

Ingênua, né?

Eu achei que era fácil.

Então, depois daquela conversa, eu simplesmente... esqueci. E nunca mais toquei nesse assunto com você.

Hoje eu escrevo esse texto sabendo que eu fui covarde e ingênua.

Mas eu choro sabendo que além de tudo eu fui culpada.

 

Ellis Bell

Comentários

  1. Xuxu, você é tão forte! Apesar de saber que palavras não ajudam, pode ter certeza que nada foi culpa sua. Fica bem, to aqui��

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